Um pouco de Humanismo, para orientar os seus prognósticos.
FLUMINENSE E A ORIGEM NOBRE
QUE os tricolores não percam seus referenciais, mas o Fluminense nasceu no Flamengo, quis morar em Botafogo e, se dependesse de seus fundadores, jamais seria batizado com este nome. Isto, muito antes de saber que times com o nome destes dois bairros seriam dois dos seus três grandes rivals na história do futebol carioca. Outro fato que pode causar decepção: os hoje torcedores tricolores, bem no inicio do século, seriam chamados de bicolores, ou até, quem sabe, degradés, pois foi assim que o Fluminense Football Club nasceu, em cinza-claro e branco.
A historia do futebol do Rio começa junto com a historia do Fluminense. Oscar Cox, recém-chegado de Lausanne em 1897, levou quatro anos para encontrar outros dez amigos para, com ele, formar o primeiro time de futebol da cidade. Ainda não se pensava em clube quando o time de 11 peladeiros cariocas cruzou a Baia de Guanabara para encontrar outro time de peladeiros dispostos a disputar um match. Se ainda fosse o criquete, esporte importado cerca de um seculo antes, a turma de Cox não iria encontrar dificuldades para organizar um torneio. O futebol, no entanto, um esporte trazido há não muito tempo da Inglaterra, era conhecido de poucos por aqui. Entre estes poucos, os ingleses do criquete. E Niteroi tinha um clube de ingleses chamado Rio Cricket Club.
Foi assim que, no primeiro dia de agosto de 1901, Cox e seus peladeiros, enfim, encontraram um adversário. O Rio Cricket Club reuniu um grupo de ingleses autênticos para enfrentá-los. O time niteroiense foi assim escalado: Sutfield, Tootal, Reither, Moreton, Calvert, Kirby, Carton, Stade, Mutzenbecher, Millar e Monteith.29 O resultado nao foi nada demais: 1 a 1. O empate parecia ser o destino destes dois times, pois, em seguida ao jogo de Niterói, duas outras partidas foram organizadas no Rio e os resultados foram dois outros empates. Os jogos no Rio foram disputados em outro clube de críquete, o Payssandú, no século XIX frequentado pela princesa Isabel e hoje um clube formado de sócios ainda de origem inglesa, dedicado basicamente ao tênis e ao bowls, algo como o jogo de bocha praticado num gramado. A ligação entre o futebol do início do século e o criquete vai alem da origem inglesa de ambos. Ao que tudo indica, os únicos lugares que dispunham de gramado suficientemente amplo para nele se demarcar um campo de futebol eram os clubes de críquete, esporte praticado também na grama.
Como a população de imigrantes ingleses no Rio do inicio do século era significativa, mas não tão grande a ponto de formar varies times de futebol, Cox e seus peladeiros pegaram um trem para São Paulo, onde o futebol chegara um pouco antes com Charles Miller e estava minimamente consolidado. Em São Paulo, os cariocas, por serem exatamente cariocas, se batizaram Rio Team para enfrentar duas vezes o Internacional. Resultado? Dois empates. Parecia carma. Na volta ao Rio, o chacoalhar do trem mexeu com as idéias de Cox e sens amigos. E se formassem um clube no Rio voltado exclusivamente para a pratica do futebol? Foi feita uma primeira tentativa de dar forma a idéia, mas a reunião fracassou.
Nova ida dos peladeiros de Cox a São Paulo, ainda em 1901. Desta vez, um time que só conhecia empates, conheceu o gosto da derrota para o Internacional e o Paulistano. As derrotas, contudo, não abalaram a vontade dos cariocas de terem um clube. Assim, na noite de 21 de julho de 1902, no numero 51 da rua Marques de Abrantes, casa de Horacio da Costa Santos, no Flamengo, foi fundado o Fluminense. Discutiu-se para se chegar ao nome do clube; a maioria queria Rio, mas este fora dado a um time formado por um dos que estiveram naquela primeira e fracassada reunião. Unido ao Laranjeiras Natação e Regatas, esse time teve vida curta. Por analogia, se chegou ao nome Fluminense. Vinte homens, Cox entre eles, e claro, assinaram a ata de fundação e, ao lado dos nomes, escreveram seus endereços, a maioria residia na zona sul (Flamengo, Laranjeiras e Botafogo) ou em ruas nobres do Centre, como rua do Ouvidor e da Quitanda.
No primeiro dia de agosto daquele ano, o Fluminense já tinha dobrado sem numero de sócios e em 10 de outubro os irmãos Arnaldo, Carlos e Guilherme Guinle acrescentaram seus nomes e, principalmente, sen então influente sobrenome na lista de sócios. Os três eram filhos de Eduardo Guinle, um descendente de franceses que fez fortuna no Brasil no fim do Império. O dinheiro fácil e farto, misturado a tradição européia, fez do sobrenome Guinle um dos mais ilustres da belle epoque. Eduardo e sua família circulavam pelos mais concorridos salões da época e eram sócios de diversos clubes. O medico Carlos, por exemplo, era sócio de, pelo menos, cinco associações clubísticas só no Rio: Fluminense, Jockey, Derby, Diários e Engenharia. Na Franca, era sócio do Cercle du Bois de Boulogne e do Pólo de Paris.30
Antes de se estabelecer em Laranjeiras, o Fluminense tentou se instalar em Botafogo, num terreno da rua Dona Mariana, mas a diretoria não conseguiu fechar o contrato com o proprietário. Ja o dono de um terreno próximo ao Palácio Guanabara, antiga residência da princesa Isabel, não se importou de alugá-lo ao clube, em 17 de outubro de 1902. Dois anos mais tarde, Eduardo Guinle comprou a casa nos fundos do terreno, para transformá-la em sede, e todo o terreno disponível em volta do que era apenas o campo de futebol para ampliar as dependências do clube.
Neste mesmo ano, Oscar Cox, que fora a Londres e aproveitou para trazer o uniforme do time na bagagem, escreveu para os companheiros do Rio dizendo que estava tendo grande dificuldade em achar um uniforme nas cores cinza-claro e branco e que as camisas tricolores — branco, verde e encarnado — eram facilmente encontráveis. Mediante tais circunstâncias, propôs uma troca de cores no uniforme e na bandeira do clube. Embora o Fluminense tivesse conhecido suas primeiras vitórias com a antiga camisa bicolor, vencendo o Rio duas vezes em 1902. o Paulistano e o São Paulo, na casa dos adversários, em 1903, foi feita a troca das cores originais. No que se supõe ter sido a estréia da camisa tricolor, um jogo contra o Paulistano, nas Laranjeiras, as novas cores nao deram sorte ao time. Os tricolores perderam por 3 a 0. Menos importante que o resultado foi o fato de esta ter sido a primeira partida disputada no Rio com ingressos pagos. O publico pagante foi de 996 pessoas. De 1902 ate a época do profissionalismo, já na década de 30, o Fluminense foi um clube de famílias ricas, como tantos outros clubes não esportivos criados no século anterior. Em seus salões eram promovidos bailes freqiientados pelas melhores famílias do Rio. O futebol era apenas mais uma diversão da elite da época. Diversão para todos os sexos e todas as idades. A participação das mulheres, que fique claro, era só nas arquibancadas, onde moçoilas casadoiras suspiravam por rapazes de berço que exibiam seus dotes atléticos, correndo atrás da bola e dizendo um polido "I'm sorry" após cometerem faltas. Era a época em que a poeta Anna Amélia dedicava versos a Marcos Carneiro de Mendonça, o goleiro símbolo do Fluminense, comparado por ela a um deus grego, por seu refinamento, graça e nobreza, como no poema "O salto", obviamente, o salto de seu amado goleiro.
“Ao ver-te hoje saltar para um torneio atlético,
Sereno, forte, audaz como um vulto da Ilíada
Todo meu ser vibrou num ímpeto frenético
Como diante de um grego, herói de uma Olimpíada.
Estremeci fitando esse teu porte estético
Como diante de Apolo estremecera a dríada.
Era um conjunto de arte esplendoroso e poético,
Enredo de inspiração para uma heliconíada.
No cenário sem par de um pálido crepúsculo
Tu te enlagaste no ar, vibrando em cada músculo
Por entre aclamações da massa entusiástica,
Como um Deus a baixar do Olimpo, airoso, lépido
Tocaste o solo, enfim, glorioso, ardente intrépido,
Belo na perfeição da grega e antiga plástica.”
(de “Cem Anos de Paixão”, Cláudia Mattos, Rocco)
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